Um plano para fazer a América voltar ao trabalho (Tradução, EN-PT – Telmo Ferreira, Tradutor Acreditado NAATI)

Nota:

Este artigo foi publicado, no passado dia 22 de março, no Jornal New York Times. Trata-se de um artigo de opinião, publicado por Thomas L. Friedman, cronista deste periodico.

Para ler e refletir.

Aguardo os seus comentários.

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Um plano para fazer a América voltar ao trabalho

Opinião

Alguns especialistas dizem que isso pode ser feito em semanas, não em meses  – e a economia e a saúde pública estão a ser postas em causa.

Por Thomas L. Friedman

Colunista de Opinião

  • 22 de março de 2020

 

Foto cedida por Damon Winter / The New York Times

 

Neste dias, qualquer líder – seja ele local, estatal ou Nacional – é colocado a prova. São questionados individualmente para tomar decisões de grande importância (de vida ou de morte), enquanto atravessam um nevoeiro, com informação imperfeita, com toda a gente a gritar-lhes, no banco de trás do automóvel. Eu sei que as tuas intenções são boas. Mas, à medida que alguns dos nossos negócios encerram e milhões de pessoas são colocadas em lay-off, alguns especialistas começam a questionar: “Espera aí! O que é que nós estamos a fazer a nós próprios? À nossa economia? À nossa próxima geração? É esta cura – mesmo que momentânea – pior que a doença?”

Eu também tenho estas dúvidas. Os nossos líderes não estão a ficar completamente cegos: Eles trabalham com base no aconselhamento de epidemiologistas credenciados e de especialistas em saúde pública. Contudo, temos que ter cuidado com alguns “pensamentos do grupo”, os quais representam uma reação natural, mas perigosa, de resposta a uma crise nacional e global. Estamos a tomar decisões que afetam todo o país e toda a nossa comunidade – deste modo, pequenos erros de “navegação” podem trazer consequências enormes.

Claro que, estando este vírus a afetar, potencialmente, tantos americanos, ao mesmo tempo, necessitamos de mais camas hospitalares, equipamentos de tratamento para aqueles que precisam deles, assim como de equipamentos de proteção, como as máscaras N95, para os médicos e enfermeiras que cuidam de doentes infetados pelo vírus. Isso é urgente! E precisamos de corrigir, de imediato, a falha colossal de realização de testes, de forma rápida e o mais abrangente possível. Isso é urgente!

Mas, também temos de questionar-nos – igualmente de modo urgente – sobre se podemos minimizar, de forma mais cirúrgica, a ameaça que este vírus representa para os mais vulneráveis, enquanto maximizamos as hipóteses para que a maior quantidade possível de americanos posso voltar, em segurança, ao trabalho, o mais cedo possível. Um especialista, com quem falei, acredita que isto pode acontecer dentro de poucas semanas – enquanto paramos um pouco e refletimos melhor acerca do desafio que representa o coronavírus.

Com efeito, na minha caixa de correio eletrónico há uma indicação de que a estratégia em que o país se lançou está a ser alvo de uma reação negativa. E tropeçar é o que inevitavelmente acontece quando se tem um presidente que passa de tratar o coronavírus como um embuste para a guerra, no espaço de dois dias. Muitos especialistas em saúde querem encontrar um melhor equilíbrio para as questões médicas, económicas e morais que agora estão a atacar-nos, a todos, em simultâneo.

O Dr. John P.A. Ioannidis, epidemiologista e codirector do Stanford Meta Research Innovation Center, salientou, num ensaio de 17 de Março, no statnews.com, que ainda não teríamos uma noção firme da taxa de mortalidade de toda a população pelo Coronavírus. No entanto, verifico que alguns dos melhores dados disponíveis, hoje em dia,  indicam que poderá ser de 1% e que poderá mesmo ser inferior.

“Se esse é o verdadeiro ritmo”, escreveu Ionnaidis, “encerrar o mundo, com consequências sociais e financeiras potencialmente tremendas, pode ser totalmente irracional. É como um elefante a ser atacado por um gato doméstico. Frustrado e a tentar evitar o gato, o elefante salta acidentalmente de um penhasco e morre”.

O Dr. Steven Woolf, diretor emérito do Centro de Sociedade e Saúde da Universidade da Commonwealth da Virgínia[1](website em Inglês), partilhou comigo alguns pensamentos que estava a aprofundar para um ensaio: “A resposta da sociedade ao Covid-19, como fechar empresas e fechar comunidades, pode ser necessária para conter a propagação da comunidade, mas pode prejudicar a saúde de outras formas, custando vidas”. Imagine um paciente com dores no peito ou um AVC em desenvolvimento, onde a rapidez é essencial para salvar vidas, que está hesitante em chamar o 911[2] por medo de apanhar o Coronavírus. Ou um doente, com cancro, a ter de fazer quimioterapia ligeira, porque a instalação hospitalar está fechada. Ou um paciente com enfisema avançado que morre por falta de uma sala, equipada com ventilador”.

E imaginem o stress e a doença mental que virão – já vieram – do encerramento da nossa economia, provocando despedimentos em massa.

“O rendimento é um dos indicadores mais fortes de saúde – e de quanto tempo vivemos”, disse Woolf. “A perda de salários e de postos de trabalho deixa muitos trabalhadores sem seguro de saúde e obriga muitas famílias a renunciar a cuidados de saúde e medicamentos, para pagar a alimentação, a habitação e outras necessidades básicas”. As pessoas de cor e os pobres, que sofreram, durante várias gerações, com taxas de mortalidade mais elevadas, serão os mais prejudicados e, provavelmente, os que serão menos ajudados. São as empregadas domésticas dos hotéis fechados e as famílias sem opções quando o trânsito público fecha. Os trabalhadores de baixos rendimentos, que conseguem poupar o dinheiro para as compras e chegar à loja, podem encontrar prateleiras vazias, deixadas pelos compradores em pânico, pela possível falta de recursos, devido ao açambarcamento feito por outros compradores”.

Haverá outra forma?

Uma das melhores ideias com que me deparei foi divulgada pelo médico David L. Katz, diretor fundador do C.D.C.- Centro de Investigação de Prevenção de Yale-Griffin[3], financiado pela Universidade de Yale e especialista em saúde pública e medicina preventiva.

Katz escreveu um Op-Ed no The Times, na sexta-feira, que me chamou a atenção. Argumentou que neste momento temos três objetivos: salvar o maior número possível de vidas, garantir que o sistema médico não fique sobrecarregado – mas também garantir que no processo de alcançar os dois primeiros objetivos não destruamos a nossa economia, e como resultado disso, ainda mais vidas.

Por todas estas razões, argumentou, precisamos de passar da estratégia de “interdição horizontal” que estamos agora a implementar – restringindo a circulação e o comércio de toda a população, sem considerar os riscos variáveis de infeção grave – para uma estratégia de interdição mais “cirúrgica” ou “vertical”.

Uma abordagem cirúrgico-vertical centrar-se-ia em prever e proteger aqueles de entre nós com maior probabilidade de morrer ou sofrer danos a longo prazo, através da exposição à infeção pelo coronavírus – ou seja, os idosos, as pessoas com doenças crónicas e os imunologicamente comprometidos – tratando, basicamente, o resto da sociedade da forma como sempre lidámos com ameaças familiares como a gripe. Isso significa que lhes dizemos para terem respeito pelos outros quando tossem ou espirram, para vigiarem as suas mãos regularmente e, se se sentirem doentes, para ficarem em casa e ultrapassarem isso – ou para procurarem cuidados médicos, se não estiverem a recuperar como esperado.

Porque, tal como acontece com a gripe, a grande maioria vai ultrapassar este problema em dias, um pequeno número vai exigir hospitalização e uma percentagem muito pequena dos mais vulneráveis vai, tragicamente, morrer. (Dito isto, o coronavírus é mais perigoso do que a gripe típica com que estamos familiarizados). Como argumentou Katz, os governadores e presidentes de câmara, ao optarem pela abordagem horizontal de, basicamente, enviar toda a gente para casa por um período indeterminado, podem, na verdade, ter aumentado os perigos de infeção para os mais vulneráveis.

À medida que despedimos trabalhadores, e as escolas fecham os seus dormitórios e enviam todos os seus estudantes para casa”, observou Katz, “os jovens portadores de estatuto infeccioso indeterminado são enviados para casa, para se juntarem às suas famílias, em todo o país”. E por falta de testes generalizados, eles podem estar a transportar o vírus e a transmiti-lo aos seus pais, de 50 e poucos anos, e aos seus avós, de 70 ou 80 e poucos anos”.

Está bem”, disse eu, ligando a Katz, por telefone, para a sua casa em Connecticut, depois de ler o seu artigo, “mas estamos onde estamos agora”. A maioria dos estados e cidades comprometeram-se, basicamente, com algum período de distanciamento social e de confinamento no local de residência. Podemos, então, ‘fazer limonada com este limão’ – e não destruir a nossa economia”?

“Não vejo porque não” – respondeu ele. “Agora que já fechámos quase tudo, ainda temos a hipótese de optar por uma abordagem mais direcionada”. Podemos até ser capazes de alavancar o atual esforço de interdição horizontal, demográfica, em nosso benefício, à medida que nos orientamos para a interdição vertical, baseada no risco”.

Como? “Use uma estratégia de isolamento de 2 semanas”, respondeu Katz. Diga a todos para, basicamente, ficarem em casa, durante duas semanas, em vez de ficarem indefinidamente. (Isto inclui todos os estudantes universitários ‘mal-informados’, que inundam as praias da Florida). Se estiver infetado com o Coronavírus, este irá, normalmente, manifestar-se, dentro de um período de incubação de duas semanas.

“Quem tem uma infeção sintomática mostra-se então autoisolado – com ou sem testes, que é exatamente o que fazemos com a gripe”, disse Katz. “Aqueles que não o fazem, se pertencerem àquela população de baixo risco, devem ser autorizados a regressar ao trabalho ou à escola, após o final das duas semanas”.

Efetivamente, “reiniciaríamos” a nossa sociedade dentro de duas ou talvez mais semanas. “O efeito rejuvenescedor sobre os espíritos e a economia, de saber onde há luz no fim deste túnel, seria difícil de exagerar. O risco não será zero. Mas o risco de um mau resultado, para qualquer um de nós, num determinado dia, nunca é zero”.

Entretanto, devemos fazer o nosso melhor para determinar, a partir de qualquer contacto com potenciais grupos de contacto, os idosos com doenças crónicas e os imunologicamente comprometidos, para quem o coronavírus é mais perigoso. E “poderíamos potencialmente estabelecer subgrupos de profissionais de saúde, testados para serem negativos para o Coronavírus, de preferência aos de maior risco”, acrescentou Katz.

Desta forma, disse Katz, “os mais vulneráveis estão cuidadosamente protegidos, até a infeção ter passado pelo resto de nós – e a minúscula parte daqueles de nós, de baixo risco, que desenvolveram uma infeção grave, no entanto, irão receber cuidados médicos especializados, por parte de um sistema não sobrecarregado… não estamos a contar com uma propagação zero, após as duas semanas; não podemos alcançar uma propagação zero, em qualquer cenário. Contamos com a minimização dos casos graves, abrigando os mais vulneráveis da propagação ao longo do tempo, por aqueles com, ou sem, sintomas”.

É por isso que devemos também utilizar este período de transição de duas semanas (ou mais, se for isso que o CDC decidir) para estabelecer, através da análise dos dados, os melhores critérios possíveis, para diferenciar os especialmente vulneráveis de todos os outros. Por exemplo, algumas pessoas (mais jovens) foram mortas pelo COVID-19. Precisamos de compreender melhor porquê. “Há alguma investigação”, disse Katz, “que sugere que muitos deles também tinham outras doenças crónicas graves, mas isto precisa de mais dados e análises”. A determinação da população que se encontra em alto risco, deve basear-se nos dados mais factuais e ser atualizado, regularmente, pelas autoridades de saúde pública competentes.

É por isso que é tão importante pressionar o Governo federal a alargar os testes de forma tão ampla e rápida quanto possível.

Katz criou no seu website um modelo aproximado para a estratégia de duas semanas ou mais de testes ao mais vulnerável e de como pensar na estratificação do risco de coronavírus, e as diferentes respostas.

A abordagem de Katz é, simultaneamente, sóbria e cheia de esperança. Basicamente, argumenta que, nesta fase, não há forma de evitar o facto de muitos, muitos americanos irem apanhar o coronavírus ou já o terem. Esse ‘navio’ já iniciou o seu percurso.

“Perdemos a oportunidade de conter toda a população”, disse ele, “por isso agora temos de ser oportunistas estratégicos”: que aqueles que, inevitavelmente, vão apanhar o vírus e têm grandes probabilidades de recuperar sem problemas, apanhem-no e ultrapassem-no, e voltem ao trabalho e a uma relativa normalidade. E que, entretanto, protejam os mais vulneráveis”.

Durante este período, gostaríamos de criar sistemas móveis de teste e verificação da temperatura – como fizeram a China e a Coreia – para identificar aqueles que podem não cumprir esta abordagem de isolamento de 14 dias, ou, por qualquer outra razão, permanecer ou ficar infetados. Gostaríamos também de confirmar, cuidadosamente, que, uma vez recuperados da COVID-19, ficam imunes à sua obtenção ou propagação durante um período de tempo. “A maioria dos especialistas acredita que isso é verdade”, disse Katz, “mas tem havido alguns relatos de reinfeção, e o assunto não está resolvido”.

“Confirmar que os indivíduos estão totalmente recuperados, verdadeiramente imunes e não são capazes de transmitir, é um elemento crucial para proteger os nossos entes queridos, mais vulneráveis a infeções graves”, disse Katz.

Uma vez que as taxas de transmissão se tenham aproximado de zero e a imunidade do efetivo tenha sido estabelecida, concluiu Katz, podemos pensar em dar a condição de “totalmente limpo” aos mais vulneráveis. Isto pode levar meses. Mas, o plano de Katz oferece, à maioria da população, a perspetiva de normalidade, num número relativamente pequeno de semanas, em vez de um número indefinido de meses.

E, durante todo o tempo, é claro, deveria haver um trabalho rápido sobre o tratamento e a vacina eficazes. Estes devem ser implementados – globalmente – tão cedo quanto razoável.

Não sou um especialista médico. Sou apenas um repórter – que teme pelos seus entes queridos, pelos seus vizinhos e pelas pessoas em todo o mundo, tanto como qualquer pessoa. Partilho estas ideias, não porque saiba que são a cura mágica, ou porque tenho todas as variáveis em mente (e saúdo os leitores que expressem as suas dúvidas na secção de comentários). Partilho-as porque tenho a certeza de que precisamos de alargar o debate – tenho a certeza de que precisamos de menos mentalidade de ‘rebanho’ e de mais imunidade de ‘rebanho’ – à medida que chegamos a um acordo relativamente a uma escolha ‘infernal’:

Ou deixamos muitos de nós contrair Coronavírus, recuperar e voltar ao trabalho – ao mesmo tempo que fazemos o nosso melhor para proteger os mais vulneráveis a serem mortos por ele. Ou encerramos durante meses para tentar salvar todos, em todo o lado, deste vírus – independentemente do seu perfil de risco – e ‘matamos’ muitas pessoas por outros meios, matamos a nossa economia e, talvez, o nosso futuro.

 

[1] Tradução de “Centre on Society and Health from Virginia Commonwealth University” https://societyhealth.vcu.edu/

[2] Número das urgências nos EUA. Equivalente ao 112, em Portugal.

[3] https://yalegriffinprc.griffinhealth.org/ (Yale Griffin’s Prevention Research Centre)

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